Chapter 1 of 2

I

I

CRISE ROMANESCA

DESLUMBRAMENTOS

Milady, é perigoso contemplal-a,
Quando passa aromatica e normal,
Com seu typo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
Eu vejo-a, com real solemnidade,
Ir impondo toilettes complicadas!…

Em si tudo me attrae como um thesoiro:
O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lucido perfil!

Ah! Como m'estontêa e me fascina…
E é, na graça distincta do seu porte,
Como a Moda superflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!…

Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
Britannica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sósinha,
E com firmeza e musica no andar!

O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pello d'um regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomatico e orgulhoso
Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

E emfim prosiga altiva como a Fama,
Sem sorrisos, dramatica, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chamma
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado, milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os barabaros reaes;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhaes.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
Sob o setim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, allucinadas,
E arrastando farrapos—as rainhas!

SEPTENTRIONAL

Talvez já te esquecesses, ó bonina,
Que viveste no campo só commigo,
Que te osculei a bocca purpurina,
E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste commigo da Babel,
Mulher como não ha nem na Circassia,
Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
E regámos com prantos uma acacia.

Talvez já te não lembres com desgosto
D'aquellas brancas noites de mysterio,
Em que a lua sorria no teu rosto
E nas lages que estão no cemiterio.

Quando, á brisa outoniça, como um manto,
Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
Se prendiam nas folhas d'um acantho,
Ou nos bicos agrestes dos silvados,

E eu ia desprendel-os, como um pagem
Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
E ouvia murmurar á doce aragem
Uns delirios d'amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
Pousarem borbeletas doudejantes
Nas tuas formosissimas madeixas,
D'aquellas côr das messes lourejantes,

E no pomar, nós dois, hombro com hombro,
Caminhavamos sós e de mãos dadas,
Beijando os nossos rostos sem assombro,
E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
N'um amor grande como um mar sem praias,
Ouviamos os meigos dithyrambos,
Que os rouxinoes teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casaes,
Eu comtigo, abraçado como as heras,
Escondidos nas ondas dos trigaes,
Devolvia-te os beijos que me déras;

Quando, se havia lama no caminho,
Eu te levava ao collo sobre a greda,
E o teu corpo nevado como o arminho
Pesava menos que um papel de sêda…

E foste sepultar-te, ó seraphim,
No claustro das Fieis emparedadas,
Escondeste o teu rosto de marfim
No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tão calado como a Morte,
N'esta velha cidade tão sombria,
Chorando afflictamente a minha sorte
E prelibando o calix da agonia.

E, tristissima Helena, com verdade,
Se podéra na terra achar supplicios,
Eu tambem me faria gordo frade
E cobriria a carne de cilicios.

MERIDIONAL

Cabellos

Ó vagas de cabello esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o crystal d'um lago refulgente
E a rude escuridão d'um largo e negro mar;

Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús
No barathro febril da vossa grande treva,
Que tem scintillações e meigos ceos de luz.

Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
Quando elle estiver brando e livre de tufões,
E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom
Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!

E ó magica mulher, ó minha Inegualavel,
Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exhalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estontêa um millionario avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
E vaes na direcção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e elanguescer.

E a tua cabelleira, errante pelas costas,
Supponho que te serve, em noites de verão,
De flaccido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

* * * * *

Ó mantos de veludo esplendido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.

IRONIAS DO DESGOSTO

«Onde é que te nasceu»—dizia-me ella ás vezes—
«O horror calado e triste ás cousas sepulcraes?
«Porque é que não possues a verve dos Francezes
«E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

«Porque é que tens no olhar, moroso e persistente,
«As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções,
«E abrigas tanto fel no peito, que não sente
«O abalo feminil das minhas expansões?

«Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
«Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
«Que estão edificando um negro cadafalso
«E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

«Eu vim—não sabes tu?—para gosar em maio,
«No campo, a quietação banhada de prazer!
«Não vês, ó descórado, as vestes com que saio,
«E os jubilos, que abril acaba de trazer?

«Não vês como a campina é toda embalsamada
«E como nos alegra em cada nova flor?
«E então porque é que tens na fronte consternada
«Um não sei quê tocante e enternecedor?

E eu só lhe respondia:—«Escuta-me. Conforme
«Tu vibras os crystaes da bocca musical,
«Vae-nos minando o tempo, o tempo—o cancro enorme
«Que te ha de corromper o corpo de vestal.

«E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha,
«Que a tua cabecinha ornada á Rabagas,
«A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
«E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

«E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
«Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
«Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
«O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

HUMILHAÇÕES
(De todo o coração—a Silva Pinto)

Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job,
Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
E espero-a nos salões dos principaes theatros,
        Todas as noites, ignorado e só.

Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos,
        Eu analyso as peças no cartaz.

Na representação d'um drama de Feuillet,
Eu aguradava, junto à porta, na penumbra,
Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
        Saltou soberba o estribo do coupé.

Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
E, muito embora tu, burguez, me não entendas,
        Fiquei batendo os dentes de terror.

Sim! Por não podia abandonal-a em paz!
Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa
De vel-a aproximar, sentado na platéa,
        De tel a n'um binoculo mordaz!

Eu occultava o fraque usado nos botões;
Cada contratador dizia em voz rouquenha:
—Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
        E ouviam-se cá fóra as ovações.

Que desvanecimento! A perola do Tom!
As outras ao pé d'ella imitam as bonecas;
Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
        Nos grandes espetaculos do Som.

Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
Vi-a subir, direita, a larga escadaria
E entrar no camarote. Antes estimaria
        Que o chão se abrisse para me abater.

Saí; mas ao sair senti-me atropellar.
Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
        Cresci com raiva contra o militar.

De subito, fanhosa, infecta, rota, má,
Pôz-se na minha frente uma velhinha suja,
E disse-me, piscando os olhos de coruja:
—Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?…

RESPONSO

I

N'um castello deserto e solitario,
Toda de preto, ás horas silenciosas,
Envolve-se nas pregas d'um sudario
E chora como as grandes criminosas.

Podesse eu ser o lenço de Bruxellas
Em que ella esconde as lagrimas singellas.

II

E loura como as doces escocezas,
D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
Circumda-se de luto e de tristezas
E excede a melancolica Artemisa.

Fosse eu os seus vestidos afogados
E havia de escutar-lhe os seus peccados.

III

Alta noite, os planetas argentados
Deslisam um olhar macio e vago
Nos seus olhos de pranto marejados
E nas aguas mansissimas do lago

Podesse eu ser a lua, a lua terna,
E faria que a noite fosse eterna.

IV

E os abutres e os corvos fazem giros
De roda das ameias e dos pégos,
E nas salas resoam uns suspiros
Dolentes como as supplicas dos cegos.

Fosse eu aquellas aves de pilhagem
E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

V

E ella vaga nas praias rumorosas,
Triste como as rainhas desthronadas,
A contemplar as gondolas airosas,
Que passam, a giorno illuminadas.

Podesse eu ser o rude gondoleiro
E alli é que fizera o meu cruzeiro.

VI

De dia, entre os veludos e entre as sedas,
Murmurando palavras afflictivas,
Vagueia nas umbrosas alamedas
E acarinha, de leve, as sensitivas.

Fosse eu aquellas arvores frondosas
E prendera-lhe as roupas vaporosas.

VII

Ou domina, a rezar, no pavimento
Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
A musica dulcissima do vento
E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

Podesse eu ser o mar e os meus desejos
Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

VIII

E ás horas do crepusculo saudosas,
Nos parques com tapetes cultivados,
Quando ella passa curvam-se amorosas
As estatuas dos seus antepassados.

Fosse eu tambem granito e a minha vida
Era vêl-a a chorar arrependida.

IX

No palacio isolado como um monge,
Erram as velhas almas dos precítos,
E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
Os lamentos dos naufragos afflictos.

Podesse eu ter tambem uma procella
E as lentas agonias ao pé d'ella!

X

E ás lages, no silencio dos mosteiros,
Ella conta o seu drama negregado,
E o vasto carmesim dos resposteiros
Ondula como um mar ensanguentado.

Fossem aquellas mil tapeçarias
Nossas mortalhas quentes e sombrias.

XI

E assim passa, chorando, as noites bellas,
Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
E a reflectir nas gothicas janellas
As estrellas dos ceus desconhecidos.

Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
E ter as mesmas pedras no jazigo!

XII

Mergulha-se em angustias lacrimosas
Nos ermos d'um castello abandonado,
E as proximas florestas tenebrosas
Repercutem um choro amargurado.

Unissemos, nós dois, as nossas covas,
Ó doce castellã das minhas trovas!

II

NATURAES
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